A batalha de Chi-fu

O ano era 519 AEC e cada lado passara os últimos cinco (aproximadamente) nutrindo suas forças, de modo que as respectivas capacidades militares haviam alcançado o nível máximo. Liao, então regente de Wu -- junto com o futuro rei Ho-lü (então príncipe Kuang,  que provou ser um comandante brilhante) --, em vez de aguardar passivamente o próximo ato agressivo de Ch'u, decidiu lançar um ataque preventivo, convencido de que o inimigo estava se tornando uma ameaça cada vez maior.

Quando Ch'u soube dos preparativos de Wu, apressadamente coagiu seis pequenas províncias aliadas a participarem de uma campanha coordenada, sob o comando geral de Ch'u. Seus exércitos montaram então acampamento em Chi-fu, no coração do território de Ch'u, a nordeste da cadeia de montanhas que separava Ch'u (a oeste) de Wu (a leste). A ideia era, a partir de Chi-fu, marcharem de encontro às forças de Wu, que sitiavam a cidade de Chou-lai.

Um gigante atordoado (ou, sorte nunca é demais)
Os exércitos de Wu, sob o comando de Ho-lü, cientes de que Ch'u poderia resgatar a cidade com sua imensa força, retiraram o cerco e instalaram-se em um terreno mais favorável para aguardar o ataque (seguiram, assim, o princípio de "aguardar descansado quem chega cansado"). E como deus parece sempre estar ao lado de quem vai vencer, aconteceu que a caminho do embate o comandante em chefe de Ch'u adoeceu e morreu, imediatamente deixando sem rumo seu comando central.

Como seu substituto era decididamente menos capaz e os oficiais e soldados de maneira geral sentiram que sua morte era um mau presságio, não foi difícil eles se verem desorganizados e sem motivação. Quando informações sobre esses acontecimentos e sobre os ânimos do inimigo chegaram ao conhecimento de Wu, naturalmente tais fraquezas tornaram-se mais um front a ser explorado.

 A tática vitoriosa de Wu seguiu, então, três grandes frentes:
  1. determinaram que as províncias coagidas seriam seu alvo primário, sob a premissa de que elas estariam pouco inclinadas a lutar por um wang odiado e por perceberem que seus comandantes tinham pouco respeito pelo novo comandante em chefe;
  2. decidiram atacar no último dia do calendário lunar, tradicionalmente um período em que os exércitos permanecem docilmente acampados, devido ao receio de empreender atividades militares quando o equilíbrio entre yin e yang (seja lá o que isso for) se mostra inauspicioso;
  3. romperam a postura defensiva de Ch'u ao atacar abertamente o inimigo com uma força de 3 mil recrutas mal treinados, sabendo que mesmo no caso de surpreenderem totalmente o inimigo, seriam repelidos, entrariam em pânico e fugiriam, provocando uma perseguição desenfreada e desorganizada por parte dos defensores.
Sinistra emboscada
O ataque, na verdade, era uma isca e foi concentrado nos exércitos de três das seis províncias coagidas (Hu, Shen e Ch'en). Estes exércitos estavam encarregados de defender a parte central da linha dianteira, atrás da qual o exército principal de Ch'u estava acampado. O ataque teve o resultado previsto, já que os atacados saíram em disparada atrás dos atacantes (que propositalmente recuavam), caindo direto na emboscada preparada por Wu.

Tropas de Wu dispostas à direita e à esquerda da turba atacaram ferozmente, enquanto sua principal força, escondida logo à frente dos perseguidores, lançou um ataque frontal, de modo que o inimigo se viu completamente cercado. Seguiu-se um caos indescritível, com a maioria dos soldados da aliança sendo mortos ou capturados e os regentes das três províncias, sumariamente executados. A execuções, cuidadosa e visivelmente realizadas, aumentaram ainda mais o pânico entre os sobreviventes, muitos dos quais "conseguiram" fugir, tratando de espalhar o caos entre os três exércitos remanescentes.

Coincidindo com o retorno das tropas aliadas restantes, Wu lançou um ataque coordenado aos exércitos das três províncias que ainda permaneciam em seus lugares (Hsü, Ts'ai e Tun). Como previsto, eles rapidamente caíram sob a pressão combinada do assalto externo e da turbulência interna, entrando em pânico enquanto se perdiam em meio ao caos. Acabaram por fugir descontrolados, indo bater de frente com o exército principal de Ch'u, que, apesar de ainda não estar posicionado em formação de batalha, havia começado a avançar. A situação caótica acabou por evitar que eles assumissem qualquer postura ofensiva e a fuga desordenada rapidamente converteu-se numa derrota avassaladora.

Conseqüências
Uma das principais conseqüências da derrota de Ch'u foi que os residentes da região disputada por ambas as províncias, bem como das regiões que já haviam sido anexadas por Ch'u (a leste e norte), perceberam que ao mesmo tempo em que Ch'u continuava a reprimí-los e subjugá-los, não poderia defendê-los de Wu. Sentindo-se vulneráveis, e geralmente tratados com desgosto pelo regente de Ch'u, cada vez mais depositavam suas esperanças, e mesmo sua lealdade, em Wu.

Esta disputa exemplifica, ainda, uma possibilidade aberta pelos princípios advogados por Sun Tzu: a de que um exército menor ou mais fraco (Wu) pode sobrepujar um maior ou mais forte (Ch'u). Apesar de Wu ter levado em balsas, rio acima, carruagens e suas forças aquáticas e de infantaria, os exércitos de Ch'u tinham números vastamente superiores. Wu tratou então de, sorrateiramente, fazer com que o inimigo se movimentasse, aproveitando-se da confusão e desordem resultantes, bem como do terreno, para chocá-los, aterrorizá-los e atacá-los. Não há dúvida de que  o sucesso alcançado deve-se à qualidade de sua inteligência militar.

A vitória de Wu marcou, também, a primeira incursão e ocupação de território Ch'u por uma outra província, expondo-a à ameaça de uma futura invasão, pois, devido às numerosas montanhas e densas florestas que a protegiam a leste e norte, existiam apenas três rotas para penetrar o interior de Ch'u. Uma delas, agora, estava nas mãos do inimigo.

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