Ao longo do século
VII AEC,
Ch'u incrementou seu poderio militar a ponto de subjugar muitas províncias menores, como
Ts'ai, Shen e Cheng. Ao final do século, o total de pequenas províncias anexadas a seus domínios ou simplesmente destruídas alcançou a marca de 40, incluindo muitos que afirmavam ter ancestrais na
linhagem imperial dos Chou -- a dinastia que detinha o poder (ainda que pratica e tão somente nominal) de
Tudo Sob o Céu.
Desde que os
Chou tiveram que mudar sua capital para o leste, dando início ao período da história chinesa conhecido exatamente como
Chou do Leste (ou Oriental), a figura do imperador tornou-se cada vez mais enfraquecida, a ponto de, em determinado momento, o poder de fato ser exercido pelos vassalos, sob a liderança de um deles, conhecido como
hegemônico. O primeiro vassalo a assumir este papel de liderança (em nome da dinastia, claro) foi o
kung Huan, de Ch'i, cujo governo à frente da província foi
de 685 AEC até 634 AEC (
kung, para todos os efeitos, é algo assemelhado a duque).
Ch'u continuava a alimentar suas ambições, o que não impediu sua derrota para os principados aliados
Sung, Chin, Ch'i e Ch'in na famosa
batalha de Ch'eng-P'u, em
632 AEC, ano em que seu território total já cobria mil
li. A derrota fez com que
Ch'u, pelo menos temporariamente, redirecionasse sua campanha expansionista para o sul e o sudeste, passando a dominar muitas províncias menores ao longo do
rio Han. Esta mudança de rumos inevitavelmente fez com que
Ch'u e Wu entrassem em rota de conflito.
No início do século seguinte,
VI AEC, o principado de
Chin (que era outro dos fodões da época, ao lado de
Ch'u) teve a audácia de formar "
seis exércitos", usurpando uma prerrogativa imperial dos
Chou. Tornou-se também mais uma província cujo
wang aclamava-se hegemônico.
Não muito tempo depois, em
585 AEC, Shou-meng torna-se o primeiro governante de
Wu a assumir o título de
wang. Isso é outro passo desta província em direção ao estilo administrativo mais formal empregado no norte. Também representa um claro esforço no sentido de aumentar seu prestígio e acaba por colocar mais uma pedra no sapato de
Ch'u.
As províncias do norte também testemunharam o nascimento de outros
wang, embora muitas ainda fossem governadas apenas por
kung ou nobres menores.
Diplomacia em tempos de guerra
Também em
585 AEC,
Wu monta uma campanha que atravessa mil
li para atacar e derrotar o pequeno principado de
T'an, demonstrando seu crescente poder. Isto chama a atenção de
Chin, que lhes propõe uma
aliança, já em
584 AEC, por meio do envio de uma
comitiva com 9 carruagens e 125 guerreiros e oficiais, liderada por
Wu-ch'en, o
kung de
Shen.
O fato é que
Chin obtivera um razoável sucesso em seus esforços para conter
Ch'u. No entanto, ao se deparar
- com a ameaça advinda do poder crescente de Ch'in, a oeste,
- com suas próprias disputas internas e
- com o rápido declínio de seu prestígio,
resolveu desenvolver uma alternativa externa ao poder de
Ch'u. Por isso, o envio da comitiva a
Wu, já que sua força cada vez maior sugeria a possibilidade de uma parceria construtiva entre ambos.
Além da concretização da aliança, a visita tinha o objetivo explícito de atualizar os hóspedes na
arte da guerra: era preciso
apresentar a Wu a carruagem e as técnicas de combate em solo das províncias do norte. No entanto, o verdadeiro impacto e a efetividade das instruções de
Wu-ch'en são discutíveis, já que forças navais e de infantaria continuaram a predominar em
Wu, com as carruagens sendo mencionadas apenas esporadicamente nos textos históricos que dão conta de suas diversas batalhas.
Ataques importantes de
Wu contra
Ch'u foram lançados a partir de rotas aquáticas, ou pelo menos cruzando grandes rios, de modo que barcos para transporte eram inevitavelmente necessários. Isto era um limitador para o número de carruagens empregadas, já que elas eram difíceis de ser carregadas. Assim, as unidades de infantaria invariavelmente desempenhavam o papel central.
Esta visita marca, ainda, um ponto de virada no que diz respeito à correlação das forças militares e, pelo menos de forma simbólica, insere
Wu culturalmente na esfera das províncias civilizadas. Além disso,
Wu-Ch'en torna-se o primeiro "conselheiro convidado" a ser recebido em
Wu, iniciando ali uma tradição que posteriormente resultaria na "contratação" de
Wu Tzu-hsü e
Sun Tzu.
Pois bem, pouco depois desta visita, ainda em
584 AEC, Wu monta seu primeiro ataque preventivo contra um distrito subordinado a Ch'u, o distrito de Hsü. A partir de então,
durante as seis décadas seguintes haveria confrontos freqüentes entre Wu e Ch'u, enquanto ambos aspiravam a dominar a região.
Durante este período Wu saiu-se vitorioso de praticamente todos os confrontos,
enfraquecendo o poder e a influência de Ch'u. Estas repetidas derrotas forçaram Ch'u a reconsiderar sua organização e seus métodos militares, ocasionando pausas nas hostilidades por até cinco anos, quando Ch'u buscava reconstruir e retreinar suas forças.
A maioria dos ataques era empreendida por meio de
rotas aquáticas, resultando em batalhas navais, seguidas de limitados ataques por terra. Em praticamente todos os casos Wu estava melhor preparado e conseguia
- parar ou mesmo fazer com que as forças de Ch'u recuassem, ou
- habilmente utilizar-se de subterfúgios e estratagemas para virar o jogo a seu favor.
Ainda ao longo deste período, o nível de animosidade entre ambas as províncias antagonistas era tanto que uma aproveitaria para rapidamente lançar um ataque à outra, caso qualquer circunstância desestabilizante ocorresse,
a exemplo da morte do regente. Seja como for, Wu também se mostrava melhor preparado para explorar estas possibilidades transitórias.
Com isso, o prestígio de Wu cresceu a tal ponto que, já em
576 AEC, recebeu reconhecimento formal de Chou (o que quer que isso signifique). Ao mesmo tempo, o de Ch'u seguia ladeira abaixo, principalmente em função das sucessivas derrotas, e não apenas para Wu, como foi o caso de
575 AEC, quando o carrasco da hora foi Chin.
Era uma vez um nobre
Três anos após o
nascimento de Sun Tzu, ocorrido em
544 AEC, ocorreu um fato emblemático das mudanças por que passava a guerra nos campos de batalha:
o comandante de Chin, Wei Shu, fez com que suas forças de carruagens desmontassem e travassem batalha, como forças de infantaria, contra soldados "bárbaros" que lutavam a pé.
Este episódio ocorreu no primeiro ano do governo do
kung Chao (
541 AEC) e é significativo pelas seguintes razões:
- As carruagens, apesar de suas várias limitações, eram muito utilizadas como armas de guerra, assim como (e complementando): arco e flecha, lanças, machados, adagas e (minha preferida, que dá para traduzirmos como) adaga-machado (ko).
- Havia uma diferença de status entre os que lutavam (ou participavam das operações de guerra) sobre as carruagens e os que lutavam a pé (a infantaria). Somente os indivíduos de classes nobres lutavam em carruagens. Os que lutavam a pé pertenciam às classes mais baixas ou eram os inimigos "bárbaros".
- Chou rende-se às limitações das carruagens, abandonando-as para travar batalha com o inimigo em um vale confinado.
- A relutância de pelo menos um alto oficial em desistir de sua honrosa posição e "rebaixar-se" ao status de soldado de infantaria fez com que fosse sumariamente executado.
Abria-se, por consequência, um precedente para que outros exércitos em outras batalhas deixassem as velhas concepções de lado. O
software da guerra na China "civilizada" era alterado para sempre. Assim, à medida em que a infantaria ganhava força (em números e, consequentemente, em importância) oficiais da nobreza passavam a comandá-la e patentes por feitos militares eram atribuídas a qualquer um, independente de nível social. Consequentemente
o status de soldados de infantaria melhorou dramaticamente, mesmo que antigos preconceitos ainda tenham perdurado.
É importante ressaltar que
carruagens não eram utilizadas nesta época em províncias periféricas do sudeste, a exemplo de Wu e Yüeh. A princípio isto se devia ao desconhecimento e à existência de terrenos pouco adequados. No entanto, mesmo após terem aprendido as habilidades e as táticas relativas ao seu uso na guerra, estas e outras províncias e distritos continuaram a utilizar primariamente a infantaria.
Além de reduzir a importância relativa das carruagens, Wei Shu elaborou uma outra
tática não convencional para atingir seus objetivos: em vez de um ataque direto, utilizando uma formação clássica, ele posicionou as carruagens e as forças de infantaria em uma formação incomum, desequilibrada, de modo a
distrair o inimigo pelo ridículo da situação. Assim distraídos não perceberam o que ocorria de fato e acabaram derrotados pelas forças de Chin.
Mais ou menos pela época em que isso aconteceu,
Wu tornava-se cada vez mais agressiva em relação a
Ch'u. Tanto que, em
538 AEC,
Ch'u passou a intensificar as ações de reforço de suas defesas com a construção de grandes empreendimentos, que iam de fortificações diversas a cidades amuralhadas. Suponho, inclusive, que tenha emulado em suas cidades (ou pelo menos em sua capital) o modelo da foto acima.
Esta impetuosidade de
Wu, assim digamos, tinha uma das fontes de inspiração no fato de
Ch'u suprimir de forma brutal os povos minoritários e as pequenas províncias da região, o que facultava ao primeiro conseguir facilmente numerosos
aliados, bem como suporte local entre tais povos e províncias. Ao explorar o senso de identidade alimentado pela existência de um inimigo em comum,
Wu era capaz de conseguir junto a eles
suporte material, guias locais e inteligência de campo -- nada de que se necessite muito numa guerra.
Um gigante cego e um pequeno tropeço
O imenso poderio de
Ch'u, ainda por cima, cegava o gigante para estes detalhes e aparentemente insuflava sua arrogância a tal ponto que, de algum modo, o fazia perder batalha após batalha para o pequeno mas impertinente
Wu. Foi o caso de
537 AEC, quando montou um ataque em larga escala, em conjunto com vários distritos subalternos e contando com o apoio de
Yüeh, apenas para se ver derrotado uma vez mais. Este conflito é significativo porque marcou o
primeiro confronto entre Wu e Yüeh, províncias vizinhas que viriam a se estranhar diversas vezes ao longo da história.
Teimosa que era e excessivamente confiante, mais tarde no mesmo ano
Ch'u tentou avançar novamente, mas teve que recuar ao encontrar
Wu completamente preparado -- muito devido à sua capacidade, já relatada acima, de aproveitar as brechas do inimigo para
formar alianças e obter informações estratégicas.
Todas estas derrotas tinham uma consequência fatal para
Ch'u: seu enfraquecimento cada vez mais intenso,
tendo dissipada sua população e recursos por conta de esforços inócuos para dominar uma província que, em termos de tamanho, mal poderia fazer-lhe cócegas. E olha que
Wu não contava, ainda, com os gênios militares de
Wu Tzu-hsü e
Sun Tzu. Talvez por isso, e não sei se estranhamente,
Wu tenha perdido uma batalha travada contra a província setentrional de
Ch'i em
521 AEC, sofrendo uma perda significativa em seus exércitos.
Nada, no entanto, que tenha abalado muito suas estruturas, já que dois anos depois, em
519 AEC, obteve uma vitória acachapante sobre seu arquiinimigo,
Ch'u, na famosa batalha de
Chi-fu.