" Este ataque a Ch'u serve apenas para seus planos de vingança e não é interessante para Wu. mu senhor não deve empregá-lo".
Wuzixu tomou ciência de que Kuang desejava fazer mal a Liao e disse a si mesmo: "Já que Kuang tem intenções subversivas, ele ainda não pode levar adiante assuntos externos". Então ele foi procurar Liao e disse: " dizem que os senhores feudais não mobilizam tropas e atacam outras províncias por causa de uma pessoa comum".
Liao perguntou: "porque diz isso?"
Wuzixu respondeu: "os senhores feudais executam um governo despótico; não é sua intenção resgatar os aflitos e por isso mobilizar o exercito. No momento, sua augusta majestade manipula a província e controla sua grandisidade. mobilizar o exército por um companheiro ordinário não seria justo. Portanto, de acordo com sua decisão, não me atrevo a agir". Liao então cessou os preparativos para o ataque e Wuzixu retirou-se para uma fazenda erma. No entanto, ele continuou a procurar homens corajosos e recomendá-los a Kuang, esperando assim aproximar-se dele. Desta forma Kuang foi apresentado a Chuan Chu.
Sobre Chuan Chu
Chuan Chu era nativo de T'ang-yi. Quando Wuzixu fugiu de Ch'u, por acaso o encontrou na estrada quando Chuan estava para lutar com outro homem. Quando atacou seu adversário, sua ira tomou grandes proporções, tanto que ele mal pôde resistir. No entanto, assim que ouviu a voz de sua esposa, voltou imediatamente para casa. Wuzixu achou isso estranho e então o questionou a respeito:
" Como pode sua ira extrema ser aplacada tão logo você tenha ouvido uma voz feminina? Gostaria de saber se há alguma explicação".
Chuan Chu disse: "Você entendeu erroneamente meu comportamento como simplesmente o de um homem estúpido. Como você pode falar sobre isso em termos tão vis? Para ser humilde diante de apenas um homem é preciso ser capaz de assoberbar-se sobre 10 mil".
Ele então examinou sua aparência: uma testa rude com os olhos profundos, peito de tigre e costas de urso, feroz em lidar com dificuldades. Sabendo que ele era um homem corajoso, Wuzixu secretamente sabe o Chuan com o objetivo de utilizá-lo posteriormente.
Kuang conhece Chuan Chu
Portanto, quando percebeu a oportunidade no plano de Kuang, Wuzixu o apresentou ao príncipe. Depois de Kuang ter admitido Chuan como servidor e o tratado com respeito, ele disse: "os céus te enviar um para suplementar minhas raízes perdidas".
Chuan respondeu: "quando o wang Yü-mei faleceu o Liao se estabeleceu como herdeiro por direito. Porque o senhor deseja fazer-lhe mal?"
O regente anterior, Shou-meng tinha quatro filhos. O mais velho, Chu-fan, meu pai; depois, Yu-chi, Yu-mei e Chi-cha. Esse tinha uma moral exemplar, tanto que quando meu pai estava à beira da morte, ele transmitiu o trono para o próximo dos filhos de Shou-meng (em idade), pensando que eventualmente seria devolvido a Chi-cha que estava em uma missão junto aos senhores feudais, ausente e sem disposição para retornar. Quando Yu-mei morreu, o trono ficou vago e Chi-cha deveria ter sido estabelecido. Caso contrário, eu, o filho mais velho de Chu-fan, deveria ter sido entronado. Então, como é que pode Liao ter sido o sucessor? Meu poder era fraco, inadequado para controlar os eventos. Sem empregar a força, como posso agora satisfazer minhas ambições? E mesmo que eu tome o trono de Liao e Chi-cha retorne do leste, ele não me deporá".
Chuan Chu disse: "Por que não fazer com que alguns dos ministros preferidos do wang falem com s.at sfaçãa da decisão do antigo wang para estimular seus pensamentos? Faça com que ele saiba para quem a província dará sua fidelidade. Por que o senhor pessoalmente deve preparar espadachins e, portanto, macular a Virtude do antigo wang?".
Kuang retrucou: "Liao sempre foi ganancioso e fiava-se na força. Ele sabe as vantagens de avançar, mas nunca considera recuar ou ser complacente. Por esta razão eu procuro homens que também tenham problemas, a fim de unirmos nossas forças. Eu gostaria apenas que você compreendesse minha retidão".
Chuan Chu: "as palavras do meu senhor tem sido extremamente expressivas. Que implicações elas têm para o senhor?".
Kuang: "Nenhuma. Eu falava sobre os altares da província. Homens comuns não podem empreender tais ações, mas apenas aguardar o mandato dos Céus".
Chuan: "Eu gostaria de receber o seu mandato".
Kuang: "O momento ainda não é apropriado".
Chuan: "Quando alguém deseja matar seu regente, deve primeiro descobrir o que mais lhe apetece. O que mais apetece ao wang?"
Kuang: "Ele ama o sabor dos alimentos."
Chuan: "E qual o sabor que mais lhe apetece?"
Kuang: "Peixe assado."
Chuan Chu então partiu para o lago T'ai, onde ele estudou como assar peixe por três meses. Quando ele conseguiu o melhor sabor, retornou discretamente e aguardou as ordens de Kuang.
Liao despacha os príncipes
Na primavera do 13o ano do governo de Liao, na esperança de explorar o luto de Ch'u pelo wang, ele despachou os príncipes Kai-yu e Chu-yung no comando de tropas para sitiar a capital de Ch'u e nomeou Chi-cha como embaixador em Chin, onde ele deveria observar como reagiam os senhores feudais. Ch'u enviou tropas que bloquearam a retaguarda dos exércitos de Wu, de modo que eles não conseguiam avançar, nem poderiam recuar. O coração de Kuang avivou-se.
Wuzixu entendeu que Kuang percebera que o momento vital da mudança havia chegado, então lhe disse: "Agora que o wang atacou Ch'u e o destino de seus dois irmãos mais novos e suas tropas é incerto, minhas ações são urgentemente necessárias. O momento não acontecerá novamente e não pode ser perdido."
Com parte significativa das tropas de Wu fora e, mais importante, com os príncipes (que presumo serem aliados de primeira ordem de Liao) ausentes, Kuang não teve dúvidas de que sua hora havia chegado e que não poderia perder a oportunidade. Dirigiu-se a Chuan Chu nestes termos:
"Atualmente os irmãos mais novos estão atacando Ch'u enquanto Chi-cha ainda não retornou de sua missão. Os povos do norte costumam dizer que se você não vai atrás do que quer, jamais vai conseguir. O momento não pode ser desperdiçado. Eu sou o descendente direto do antigo wang e desejo governar Wu. Se eu obtiver sucesso, mesmo que Chi-cha retorne, ele não me deporá"
Chuan Chu: "Liao pode ser morto. Sua mãe está velha e seus filhos são fracos. Seus irmãos mais novos atacaram Ch'u, mas tiveram seu retorno impedido. Agora a província de Wu sofre com dificuldades externas, ao mesmo tempo em que não possui ministros resolutos. Se eu não for o homem, quem será? No entanto, não posso abandonar minha velha mãe e meu jovem filho à própria sorte. O que posso fazer a esse respeito?"
Kuang respondeu: "Eu vou ser como você para eles".
O Banquete
No verão, no 4º mês, Kuang escondeu alguns homens armados em uma câmara subterrânea e convidou o wang para um banquete. Liao teve uma conversa franca com sua mãe:
"O príncipe Kuang preparou um banquete para mim. Eu não espero nenhum problema, mas o que você acha?"
Sua mãe respondeu: "O temperamento de Kuang é precipitado e ele constantemente tem um semblante envergonhado, cheio de ódio. Você deve tomar cuidado."
Liao então vestiu uma armadura de lâminas de ferro de três camadas e fez com que seus homens guardassem o caminho entre os portões do palácio e a mansão de Kuang, o local onde seria o banquete. Eram todos parentes e amigos do wang, com espadas em ambos os lados das escadas, das portas internas e do seu assento. Ele fez, ainda, com que todos que o serviam fizessem guarda com longas adagas-machado de pontas de lança. Deixaram nus os atendentes que trouxeram os mantimentos e os fizeram mudar suas roupas fora da porta. Depois também os fizeram arrastar-se de joelhos, enquanto outros espadachins os escoltavam de perto por ambos os lados. Foi com esse nível de segurança que os mantimentos chegaram a Liao.
Quando eles já estavam ruborizados do vinho, Kuang, fingindo sofrer com dores nos pés, entrou na câmara subterrânea, enquanto Chuan Chu apareceu com um peixe dentro do qual tinha escondido um punhal. Assim que rasgou o peixe do punhal apareceu, foi atingido no peito pelas adagas-machado dos guardas do wang. Embora seu peito estivesse dilacerado, Chuan Chu ainda conseguiu apunhalar Liao, traspassando sua armadura e atingindo-o costas. Com Liao já morto, seus guardas assassinaram Chuan. Na confusão, Kuang atacou os guardas com seus homens que estavam escondidos, exterminado todos.
Quando Chi-cha finalmente retornou, o usurpador ofereceu-lhe o trono, sabendo que ele declinaria (baseado em sua postura anterior). A respeito de todo o episódio, Chi-chale disse:
Se os sacrifícios aos nossos ex-governantes não forem negligenciados, nem o povo ficar sem um mestre adequado, se as oferendas forem apresentadas em nossos altares e a província não sucumbir, ele será meu governante. Contra quem devo alimentar ressentimento? Vou chorar os mortos e servir aos vivos, enquanto aguardo o decreto dos Céus. Não irei criar desordem e seguirei aquele que está no trono, da mesma maneira que segui nossos antigos governantes.
Em seguida, ele reportou a execução de sua missão e chorou sobre o túmulo de Liao. Depois, retomou a sua posição e aguardou as ordens do novo wang. Ao tomar conhecimento do ocorrido em Wu, o exército de Chu retirou-se, abrindo passagem para que o príncipe Yanyu "fugisse" para Shu e Zhuyong, para Zhongwu.
Com sua ambição satisfeita, Kuang concedeu um feudo ao filho de Chuan, fazendo-o ministro convidado, e convocou Wu Tzu-hsü para servir como oficial de protocolo para enviados estrangeiros e ajudá-lo no planejamento dos assuntos de governo. Pouco depois providencia o assassinato da herdeiro de Liao pelas mãos de Ching K'o.
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Estes episódios estão registrados nos Comentários aos Anais das Primaveras e Outonos, livro X, Duque Zhao, 27° ano. Os Anais (comentados ou não) são uma das principais fontes históricas sobre o período em que viveu Sun Tzu e, diz a lenda, teriam sido escritos pelo próprio Confúcio.
Há ainda uma "versão estendida" dessas peripécias publicada no livro "The Tao of Spycraft", de Ralph D. Sawyer, 2004, p. 68-71. Mas acho que a que reproduzi acima já dá uma ideia boa do que vem por aí, de modo que não devo reproduzir o texto de Sawyer (a não ser no livro, já com as devidas licenças poéticas).
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